domingo, 12 de julho de 2009

Máximas e trechos 01

“Há uma certa previsibilidade na tristeza,
o que me deixa mais feliz à imprevisibilidade da alegria.”
(Vagno Fernandes)
“O que não me viabiliza,
favor conceder-me 10 minutos de silêncio.”
(Vagno Fernandes)
“Deus seria uma figura mais interessante
se não fosse intermediado por seres humanos.”
(Vagno Fernandes)
Ela começou a se preocupar com a localização exata de Deus. A culpa era da professora: Deus está em toda parte, ela tinha dito, e Laura queria saber: Deus estava no sol, Deus estava na lua, Deus estava na cozinha, no banheiro ou debaixo da cama. (Eu gostaria de torcer o pescoço dessa mulher, Reenie dizia.) Laura não queria que Deus aparecesse de repente na frente dela, o que não era difícil de entender considerando o comportamento recente dele, como diziam: Havia levado sua mãe. Abra a boca e feche os olhos e eu lhe darei uma grande surpresa, Reenie costumava dizer, segurando um biscoito com a mão escondida atrás das costas, mas Laura não fazia mais isso. Ela queria ter os olhos bem abertos. Não que ela não confiasse em Reenie, era só porque tinha medo de surpresas.
Deus devia estar no armário de vassouras. Parecia o lugar mais provável. Ele estava espreitando ali como algum tio excêntrico e possivelmente perigoso, mas ela não podia ter certeza se ele estaria lá num determinado momento porque tinha medo de abrir a porta. “Deus está no seu coração”, dizia a professora da escola dominical, e isso era pior ainda. Se ele tivesse no armário de vassouras ainda seria possível fazer alguma coisa, como trancar a porta por exemplo.
Deus não dormia nunca, dizia o hino – nenhum sono despreocupado cerrará suas pálpebras. Em vez de dormir, ele andava pela casa à noite, espionando as pessoas – vendo se elas haviam sido boas, ou enviando pestes para acabar com elas, ou realizando algum outro capricho. Mais cedo ou mais tarde ele ia acabar fazendo algo desagradável, como acontecia freqüentemente na Bíblia. – Presta atenção, é ele – Laura costumava dizer. O passo leve, o passo pesado.
- Isso não é Deus. É apenas o papai. Ele está na torrinha.
- O que ele está fazendo lá?
- Fumando. – Eu não queria dizer bebendo. Parecia desleal.
(Margaret Atwood)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Da outra parte que nos faz parte

Consequentemente, aqui estou 27 anos. Verbos em primeira pessoa me irritam. No entanto, é inegável que a responsabilidade é toda minha. Pequeno Príncipe por vezes também me irrita, não que eu tenha medo dos meus afazeres afetivos, talvez um pouco de receio. Porque foi assim: um quarto, uma criança, uma escola, uma família e 27 anos divididos em blocos assim: 1-4, 4-8, 8-12, 12-16, 16-20, 20-24, 24-25 de agosto de 2009 ainda se aproximando e eu com essa coisa toda de ter vivido, compreender o presente, tentar não me preocupar com o futuro e aprender com quem eu menos tenha me dedicado, mas recebido o amor sincero que espera alguém que ainda virá, alguém que me emociona pelo bem que fiz a mim mesmo: perdoar quem não cometeu pecados e que em minha vida preparou santidade e união – famílias, amigos e amores incompreendidos. Ainda de posse de meu corpo enrigecido de constantes autopunições, tento carregá-los como sobrinhos recém nascidos, braços enfraquecidos, procuro a força que mantêm os fracos de pé para conseguir escapar, sim, da vida coerente que eu pensava ser mais fácil manipular – o receio vem do medo de um dia cambalear o suficiente para não transportá-los durante todo o trajeto. Por enquanto, vou pra Minas e em Sampa trabalho com possibilidades já conquistadas e outras tão puras que estão por vir.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

MALDITA BIOLOGIA

Ainda hoje no dentista fiquei surpreso comigo mesmo por saber, anteriormente, que a arcada dentária possui dentes molares, pré-molares, caninos e incisivos. “O aparelho somente conseguiu movimentar os dentes pré-molares...” Poderia ter dito que “houve somente o movimento desse dente aqui ó!” Certamente a culpa foi de alguma dessas aulas de biologia sobre o corpo humano nas quais insistiam que deveríamos conhecer o nosso próprio corpo, caso contrário, seríamos ignorantes seres humanos; biólogos. Não desmereço o ensino que me foi dado. Ensino é ensino. Informação é sempre bom. Só me pergunto, POR QUE MEU DEUS!? Queria tanto citar qualquer mínimo trecho de Camões de cor (mesmo odiando) em alguma mesma de bar...mas não, só poderia falar sobre dentes, movimentos retilíneos uniformes, raiz quadrada e coisas que todo mundo em uma roda de amigos adoram conversar. Agora, sou obrigado a fazer pré-vestibular de cultura, decorar qualquer texto obrigado porque minha memória já não tem tempo de fazer isso automaticamente. Relativizamos a cultura que nos serve realmente. Se somente me informassem que os genes são degraus de uma escada de Dali onde se encontram o que somos por dentro e por fora, pronto, já bastaria. Porém, fizeram-me decorar todo aquele processo que uma coisinha se liga a outra e vai se misturando, agora não me lembro o nome mas tenho as imagens todas em minha mente. E que imagens!!! Tão desanimadoras quanto a criação de caramujos do meu tio. Agora vivo em meio a uma geração de biólogos natos que não me possibilitam nem escrever um texto acima de 144 caracteres. E ainda inventaram o Twitter para incentivar o diálogo e a exposição de opinião das pessoas de forma rápida. Talvez haja uma distorção da realidade ou então esse é o FUTURO!!!! Afinal, já estamos em 2010, modernos, e tal, chiclete... Outro dia, ainda no dentista, na verdade na minha primeira consulta, revelei que aquela era a primeira vez que estava indo a um dentista em toda minha vida. O dentista surpreso, ainda mais depois de elogiar minha ÓTIMA dentição (frisou isso várias vezes, o que me fez sentir-me envaidecido e ficar rindo o dia todo, afinal, não é todo dia que recebemos elogios tão convictos que podem ser constatados em moldes de resina e expostos em raio X) disse: Não Acredito!!! (Quantas exclamações somos capazes de colocar atrás da gente durante toda vida? Interrogações eu sei bem...) Após sua surpresa eu perguntei: Quantas vezes você já contratou um arquiteto para fazer ou decorar sua casa: Ele: Nenhuma. Eu: Não acredito!!! Tá vendo, ta vendo! É quando digo: É TUDO CULPA DA BIOLOGIA.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

FESTA DE ARROMBA

A guerra entre o Cale-se Pai e o Por Favor Pare Agora na dec. 60 do século passado deu por vitoriosa a Wanderlea.

Foi fácil nos acomodarmos após uma luta de apenas 20 anos para que pudéssemos nos reproduzir e criar uma geração acostumada a ser passiva ante seus direitos, vender suas opiniões (dar “de graça” ou até mesmo não as ter) e ver a impossibilidade de mudança por serem incapazes de verificar quaisquer mudanças neles mesmos.

Atualmente, nos vemos cheios de iê-iê-iê até a tampa. Não podemos pensar e nem dizer, quem foi que disse que nos livramos da ditadura?! Qualquer raciocínio lógico soa com filosófico demais, exagerado demais, sério, frustrado ou mal-amado demais. Relativizamos a censura e procuramos atingir o público alvo. Os que não forem alvo que procurem ser menos subjetivos.

Mesmo humilhada, que a “outra” seja enaltecida à “santa”.

Amém.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Dia Internacional da Mulher

No último dia 8 de março, comemorou-se (?) o Dia Internacional da Mulher.

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano. Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).
Na verdade, a intenção desta data não era a comemoração. O verdadeiro objetivo deste dia é criar uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade. Palestras, conferências, manifestações, protestos e denúncias são feitas todos os anos.

É longe o caminho das mulheres em busca de respeito à sua dignidade pessoal, social e profissional. Relembrando a História, no século XIX, em plena Revolução Industrial na Inglaterra, mulheres sozinhas e sem marido eram consideradas um problema social. E nada passava de uma preocupação política com o mercado de trabalho, pois já naquele tempo, havia mais mulheres solteiras do que homens e estas poderiam deixar suas funções procriadoras para furtar oportunidades de trabalho dos homens.
Conhecidas como feministas, elas tinham uma visão bem prática sobre a questão. Para elas, o excedente de mulheres disputando vagas no mercado de trabalho, deveria ajudar à todos na reflexão sobre as políticas sociais que lhes fechavam a porta para o ensino superior, para o voto e para as oportunidades profissionais.

Portanto, não vamos confundir mulheres mal amadas que dizem odiar os homens, com mulheres que simplesmente lutaram para direitos civis equivalentes aos homens. E isso não acabou.

Mesmo hoje em dia, a mulher ainda tem seu salário diminuído, sofre preconceito em meios mais restritos como escritórios, empresas, futebol, gerenciamento, informática, jurídico e por que não, entre os blogs? Eu mesma quando comecei, recebi uma mensagem de um homem duvidando que eu fosse mulher, afinal eu fazia legendinhas engraçadas e falava de futebol, graça? Coisa de homem, disseram-me.

O Feminismo passou algumas barreiras em certas épocas. O que era reinvidicação de igualdade, passou a ser o que mais odiavam, arrogância e piquete de superioridade. Porém, não vamos esquecer a essência.

Mulheres não querem ser melhores do que os homens. Somos diferentes sim, e temos que trabalhar em cima destas diferenças, tão necessárias para nosso relacionamento. Civilmente não há discussões, somos todos iguais, e eu ainda fico com essa luta inicial, trabalho, respeito e direitos.

Discutir sobre a obrigação dos homens em nos servir é patético. Muitas dessas mulheres se valem de discursos inflamados de superioridade e pedido de igualdade entre os sexos, mas na hora de pagar a conta, se ofendem em dividir.

Pesquisado incansavelmente aqui, aqui, aqui e nas revistas Capricho, Atrevida, Criativa e TPM, entrevistas na bairro do centro de São Paulo também foram utilizadas.
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Cafeína é mulher mas aceita que abram a porta do carro, segurem sacolas e paguem a conta por ela. Realista do último dígito, Cafeína é uma mulher que não queimou o sutiã só porque ele é de rendinha. Escreve diariamente aqui, mas nem sempre com o sutiã de rendinha supra citado.

quarta-feira, 25 de março de 2009

DA VONTADE DE ESCREVER E O QUE REALMENTE ESCREVEMOS

Tenho recebido constantemente e-mails, sabe-se lá como, pois, geralmente evito cadastrar-me em sites para não me negociarem como escravo em navios de e-mailing que saem por ai vendendo tudo, de cursos de literatura a como se tornar um escritor em 20 dias e mais ainda: EXERCITE A CHAMA QUE HÁ DENTRO DE VOCÊ. Apesar da conotação isqueiro-humano-evangélico que este último anúncio prenuncia, o que mais me incomoda é tanta gente querendo escrever. Não sei se o governo Lula fez bem em alfabetizar tantas pessoas mas algumas metáforas, imagens e lirismo são realmente de cortar o coração. Vejamos:

“Ser escritor...ofício de amor
Nas palavras reflete resplendor
Explana emoções sem guardar rancor...”

(A identidade do poeta não será revelada)

Dando continuidade ao resumo do poema, tem mais palavras terminadas em “or” para logo depois surgirem as “ostas” e “ido” com a cadência de batatinha quando nasce se esparrama pelo chão ®.

Juro, por Deus, que se fosse esse meu referencial de escritor quando eu tinha 16 anos e escrevi meu primeiro poema, não teria dado continuidade a essa difícil e AINDA NÃO ALCANÇADA carreira.

O objetivo desse texto não é simplesmente reafirmar minha personalidade crítica ao ponto de ser esse meu problema kármico, mas sim, pedir por favor, parem de escrever, ou então escrevam mas não publiquem, ou então me amarrem de olhos vendados em uma cadeira no país que não tem internet....mas por favor, é que eu preciso ter prazer quando leio e algumas passagens me soam como estupro.

Outro problema recorrente é o EU. Por exemplo, já estOU incomodado com esse texto mEU pois já me utilizEI com proposta para fazer um texto em primeira pessoa mas tenho observado natualmente que o OUTRO só interessa quando está no BBB e não em um poema meloso sobre sofrimento e angústias que só dizem respeito a VOCÊ. Tá...eu também estou fazendo isso aqui... bom... Foucault me apoiaria. Um pouco de dominação não faz mal a ninguém.

De qualquer forma, a todos que estão ingressando na carreira das artes literárias, inclusive eu, o incentivo é não buscarmos receitas fáceis como disse Tom Zé na música Complexo de Épico:


“Por que então esta metáfora-coringa
Chamada válida,
Que não lhe sai da boca
Como se algum pesadadelo
Estivesse ameaçando
Os nossos compassos
Com cadeiras de roda, roda, roda, roda?”

Tom Zé. Fantástico. Então fica ai a dica para nós todos e finalizo com outra parte da mesma música:

“Ah meu Deus do céu vá ser sério assim lá no inferno”

Não diga nada

NÃO DIGA NADA

Por enquanto não é permitido
60,70,80,90,00,90,80,70,60/1936 no hable nada
don't ask, don't tell
atualmente solo habla blá blá blá.

Não que não fale
diga só o que não pensa
talvez assim em teu sexo saias bem mais performático.

No que se referem as piadas,
amordaçam-se as lágrimas, nos obrigam a contá-las
(esquecem-se que choro as vezes de felicidade)

Cheio de pernas e gestos,
cantar patriótico,
de pé, um braço em direção ao céu
mas depois à testa.

CANTO E ME CALO.