Tenho recebido constantemente e-mails, sabe-se lá como, pois, geralmente evito cadastrar-me em sites para não me negociarem como escravo em navios de e-mailing que saem por ai vendendo tudo, de cursos de literatura a como se tornar um escritor em 20 dias e mais ainda: EXERCITE A CHAMA QUE HÁ DENTRO DE VOCÊ. Apesar da conotação isqueiro-humano-evangélico que este último anúncio prenuncia, o que mais me incomoda é tanta gente querendo escrever. Não sei se o governo Lula fez bem em alfabetizar tantas pessoas mas algumas metáforas, imagens e lirismo são realmente de cortar o coração. Vejamos:
“Ser escritor...ofício de amor
Nas palavras reflete resplendor
Explana emoções sem guardar rancor...”
(A identidade do poeta não será revelada)
Dando continuidade ao resumo do poema, tem mais palavras terminadas em “or” para logo depois surgirem as “ostas” e “ido” com a cadência de batatinha quando nasce se esparrama pelo chão ®.
Juro, por Deus, que se fosse esse meu referencial de escritor quando eu tinha 16 anos e escrevi meu primeiro poema, não teria dado continuidade a essa difícil e AINDA NÃO ALCANÇADA carreira.
O objetivo desse texto não é simplesmente reafirmar minha personalidade crítica ao ponto de ser esse meu problema kármico, mas sim, pedir por favor, parem de escrever, ou então escrevam mas não publiquem, ou então me amarrem de olhos vendados em uma cadeira no país que não tem internet....mas por favor, é que eu preciso ter prazer quando leio e algumas passagens me soam como estupro.
Outro problema recorrente é o EU. Por exemplo, já estOU incomodado com esse texto mEU pois já me utilizEI com proposta para fazer um texto em primeira pessoa mas tenho observado natualmente que o OUTRO só interessa quando está no BBB e não em um poema meloso sobre sofrimento e angústias que só dizem respeito a VOCÊ. Tá...eu também estou fazendo isso aqui... bom... Foucault me apoiaria. Um pouco de dominação não faz mal a ninguém.
De qualquer forma, a todos que estão ingressando na carreira das artes literárias, inclusive eu, o incentivo é não buscarmos receitas fáceis como disse Tom Zé na música Complexo de Épico:
“Por que então esta metáfora-coringa
Chamada válida,
Que não lhe sai da boca
Como se algum pesadadelo
Estivesse ameaçando
Os nossos compassos
Com cadeiras de roda, roda, roda, roda?”
Tom Zé. Fantástico. Então fica ai a dica para nós todos e finalizo com outra parte da mesma música:
“Ah meu Deus do céu vá ser sério assim lá no inferno”
quarta-feira, 25 de março de 2009
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